segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

COMPRA A CRÉDITO: DO SONHO AO PESADELO

Em um passado não muito distante, comprar a crédito não era tarefa fácil. Isto porque diante da perspectiva de inadimplência, o comércio exigia, com muita freqüência, além de inúmeros documentos, a presença de um avalista. E convenhamos, era quase sempre, constrangedor, solicitar, ou ser solicitado, assumir tal compromisso, diante das conseqüências possíveis. Por outro lado, ter acesso a um cartão de crédito ou cheque especial, pressupunha uma série de condições, a começar pela magnitude do rendimento comprovado, o que restringia a oferta de crédito para poucos.

Na atualidade, constata-se uma situação inversa. Bancos, financeiras e outras instituições creditícias, conhecedoras da quase inexistente educação financeira da população, descobriram as vantagens da oferta de crédito fácil e farto, disponibilizado, sem avalista e, muitas vezes, até mesmo sem a solicitação do potencial cliente, o qual é convidado, ou induzido, a contrair e utilizar recursos de terceiros como se seu fosse, incorrendo em um erro que costuma ser fatal para as finanças pessoais.

Para evitar incorrer em uma situação de descontrole orçamentário, torna-se conveniente ter acesso a alguma literatura, onde são apresentados e discutidos conceitos básicos de educação financeira, assim como também definir as estratégias e instrumentos relacionados às suas ações, enquanto consumidores.

Algumas recomendações para não se tornar presa fácil das armadilhas financeiras relacionadas ao crédito:

1- Não confunda crédito com dinheiro próprio. Portanto, use-o com parcimônia, e apenas em casos de extrema necessidade;

2- Organize-se. Não esqueça as datas de vencimento de suas contas, pois, neste caso, você estará tendo despesas adicionais (juros e multas) por simples falta de planejamento;

3- Cartão de crédito - Não esqueça que sua taxa de juros é a maior do mercado financeiro nacional;

4- Cartão de crédito - Todo cuidado é pouco com as “facilidades” que o banco oferece para você pagar a dívida. Fuja do pagamento mínimo;

5- Não gaste mais do que você ganha. Seja uma pessoa superavitária;

6- Se nenhum crédito limita suas decisões, crédito fácil demais atrapalha. Via de regra, induz a um endividamento excessivo;

7- Não esqueça de conferir seu extrato bancário. Não é incomum o banco “errar” e fazer cobranças indevidas;

8- Mesmo quem tem renda elevada pode vivenciar situações desagradáveis se esquecer que tem uma restrição orçamentária, qual seja, não se deve gastar mais do que recebe.

Isso posto, é bom não esquecer que embora o cartão de crédito não seja dinheiro, exerce sua função e, o que é mais importante, é pago com dinheiro.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

EDUCAÇÃO FINANCEIRA EM PERGUNTAS E RESPOSTAS

O propósito desta coluna é apresentar semanalmente um artigo de Educação Financeira, discutindo conceitos relacionados às finanças pessoais, proporcionando, ao longo do tempo, uma base teórica que torne o cidadão mais capacitado para administrar seu orçamento familiar.

TEMA 1: CRÉDITO CONSOLIDADO

É fornecido por empresas financeiras para as pessoas que se encontram em elevado grau de endividamento.

O que é, como funciona e quais as vantagens e desvantagens de seu uso?

O que é crédito consolidado?

R-É a reunião de diversas dívidas em uma só. Isso feito transformará de imediato, uma situação de vários credores em um único, assim como também a centralização de todas as datas de pagamento em uma só. Em resumo, ao fazer um crédito consolidado, o devedor estará contraindo uma grande dívida para quitar diversas dívidas menores.

Como a principal causa geradora de um crédito consolidado é possibilitar ao devedor sair de um contexto de elevado comprometimento mensal de seus rendimentos, o novo débito contraído terá, necessariamente, um prazo mais longo de quitação, o que significará uma diminuição do valor a ser pago mensalmente.

Importa salientar que a taxa de juros tem um comportamento diretamente proporcional ao prazo de pagamento, qual seja, a um prazo maior, corresponderá uma maior taxa de juros, o que, consequentemente, implicará em um maior volume da dívida contraída.

Quais as vantagens de um crédito consolidado?

R.a) Reduz substancialmente o número de credores;

b) Diminui o comprometimento do rendimento mensal, com menores prestações;

c) Centraliza a data de pagamento, possibilitando um gerenciamento mais eficaz da dívida.

Quais as desvantagens de um crédito consolidado?

R.a) Aumenta o volume total da dívida em conseqüência de uma maior taxa de juros;

b) Como o elevado grau de endividamento de parcela significativa da população decorre, quase sempre, da inexistência de uma educação financeira, o alívio inicial provocado pela dilatação do prazo de pagamento, sem os esclarecimentos devidos sobre a origem do descontrole orçamentário, poderá induzir a novos endividamentos. Isso posto, as saídas de uma situação de caos nas finanças pessoais e familiares tornar-se-ão cada vez mais difíceis, criando uma avalanche de descontrole de resultados catastróficos para as famílias, enriquecendo, contudo, os financistas usurários.

c) Por fim, talvez a mais perversa das conseqüências da adoção de um crédito consolidado, dar-se-á a partir da exigência da garantia solicitada pelos credores.

Neste caso, como contrapartida do crédito, utiliza-se um bem imobiliário (terreno, casa ou apartamento) como hipoteca. Na hipótese, infelizmente não muito remota de inadimplência, ocorrerá à cessão de um patrimônio, via de regra, conseguido a duras penas, ao longo da vida.

Concluindo tais considerações acerca do crédito consolidado, torna-se oportuno alertar inicialmente para a necessidade de compatibilizar os volumes de ganhos e gastos, evitando-se a necessidade de endividamento.

Na hipótese da necessidade real de endividamento, sugere-se evitar ultrapassar o grau de endividamento recomendável - cerca de 30% do salário líquido com dívidas - (prestações fixas).

Finalmente, só na hipótese de um efetivo descontrole das finanças pessoais, aí sim, o crédito consolidado deve ser sugerido como alternativa, aliado, contudo, as outras medidas saneadoras das finanças pessoais. Nunca sozinho.

sábado, 2 de janeiro de 2010

ARROGÂNCIA NA BAND

O âncora do Jornal da Band, Boris Kasoy, demonstrou toda sua arrogância, diga-se de passagem, que é uma conduta típica dos imbecis, ao fazer um comentário desairoso sobre uma matéria levada ao ar no jornal televisivo, por ele mesmo apresentado, no dia primeiro de janeiro próximo passado.

A matéria era uma mensagem de dois varredores de rua, desejando aos brasileiros um Feliz Ano Novo. Pensando que os microfones estivessem desligados, comentou: “Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho”.

Como o áudio estava sendo transmitido, o vídeo caiu na internet, sendo imediatamente repudiado pelos internautas.

Diante do fato, o jornalista afirmou que errou e que iria se retratar com o público.

E daí, fica só nisso? É simples assim? Então ele usa a televisão, com condições de chegar a todos os lares do país, achincalha toda uma categoria profissional que, diga-se de passagem, é tão respeitável quanto a de jornalista, destilando todo o fel de seu preconceito venenoso e diz apenas desculpe?

É importante não esquecer que a televisão não determina, mas tem um grande poder de influência nas condutas pessoais. Portanto, quem garante que amanhã, outras pessoas não acharão também normal destratar alguns ofícios manuais, por exemplo, e depois pedirem desculpas? Afinal não é com tais comentários que se constrói uma sociedade justa, equânime e solidária.

Isso posto, estou aqui propondo e iniciando uma campanha de oposição ao Jornal da Band, com o boicote dos habituais telespectadores desse programa, desligando ou trocando de canal seus televisores pelo período de um mês. Como os programas existem em função da audiência, que por sua vez representa lucro (e esta linguagem eles entendem), espera-se, em nome do interesse pecuniário, ou da ética profissional que, a partir desse fato, haja uma maior preocupação por parte da produção dos programas televisivos em respeitar a pessoa humana, seja ela médico, professor ou varredor de rua.

Quem concorda, manifeste-se.

quinta-feira, 5 de março de 2009

"DE PEQUENINO É QUE SE TORCE O PEPINO"

Ao se buscar definir a idade adequada para a introdução da educação financeira junto às crianças, há um adágio popular bastante oportuno. Qual seja: “De pequenino é que se torce o pepino”.

O intuito, portanto, desse artigo, é ensinar, o quanto antes, conceitos e condutas que habilitem as crianças a entender o dinheiro como solução, e não como problema em suas vidas.

Isto posto, listo em seguida, alguns indicativos de condutas que considero adequados.

1- Quanto mais cedo aprender, mais consistente será a prática

Muitas crianças sabem que há muito dinheiro nos caixas eletrônicos, por exemplo. Isto decorre da percepção de que as pessoas para lá se dirigem, introduzem seus cartões e, como num passe de mágica, surgem as notas.

O que muita criança não sabe, contudo, é que o dinheiro retirado, quase sempre é originado na labuta diária de seus entes queridos. Há um provérbio adequado para explicar isto: “Dinheiro não nasce em árvore”. A origem é outra. Seu nome é trabalho.

Explicar a importância do trabalho na estrutura familiar, quer seja externamente (na obtenção de rendimentos), quer seja internamente (na execução das tarefas domésticas), torna-se oportuno para solidificar a consciência de que todos os membros da família têm parcela significativa de compromisso na boa gestão da casa, além, é claro, do orçamento familiar. Assim, da mesma forma que o pai e a mãe têm funções fora e dentro do lar, os filhos também as terão. Fazer pequenas compras no mercadinho, levar uma encomenda no Correio, comprar pão na padaria ou fazer a arrumação de seu quarto, por exemplo, são tarefas que representarão a contribuição dos filhos para o adequado funcionamento da casa. Fazer demais pelos filhos, geralmente, estimula maus hábitos.
Pelo exposto, as atividades desenvolvidas pelas crianças devem ser vistas como um compromisso, não um favor. Deve-se, portanto, desde a mais tenra idade, atentar para as vantagens do compromisso coletivo no exercício do trabalho.

2- O uso adequado do dinheiro, pressupõe a consciência exata de seu valor

Todos convivemos com restrição orçamentária[1]. Logo cedo, a criança também deverá saber que não terá tudo aquilo que deseja. Ideal será se obtiver tudo o que necessita.

Além do aspecto da escassez do dinheiro, a criança precisa aprender que o consumo exacerbado de produtos contribuirá para a escassez dos recursos naturais, assim como também para o problema da super produção do lixo, um problema pertinente tanto para as megalópoles, como para as cidades de pequeno porte[2]. Ainda sobre o consumo em larga escala, típico das sociedades de consumo[3], importa informar aos “pirralhos”que toda produção envolve o dispêndio de energia, e que, sua geração, via de regra, implica em forte impacto ambiental, desequilibrando os ecossistemas.



3- Aprende-se a fazer, fazendo

Isto explica porque quanto mais cedo a criança tiver autonomia na gestão de sua renda, mais precocemente saberá que precisa aprender a programar seus gastos de forma compatível à durabilidade de sua renda.

Como o aprendizado da programação dos gastos não é de imediata assimilação, uma alternativa recomendável é, inicialmente, transformar a mesada em semanada, visto que compatibilizar despesas e receitas semanais tornar-se-á menos penoso ao aprendiz.

4- Não confundir meios com fins

Nunca é demais alertar que o dinheiro deve sempre ser visto como solução, nunca como problema.
Isto posto, quando bem administrado, deverá funcionar como instrumento que possibilite o acesso a consecução de metas e objetivos, voltados às situações prazerosas. Para isto o dinheiro não deve ser entendido como fim. Até porque, quem estabelece a obtenção do dinheiro como meta, via de regra, torna-se escravo do vil metal, abstendo-se, consequentemente, do consumo de produtos, serviços e atividades lúdicas.

No mais, é curti-las como instrumentos que são da perpetuação da vida.


[1]Aqui entendido como a disponibilidade limitada de recursos para atender necessidades múltiplas, variadas e crescentes.
[2]Segundo a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), um em cada três aterros de cidades com mais de 100 mil habitantes de São Paulo está com sua vida útil esgotada.
[3]A característica marcante das sociedades de consumo é a existência da produção e consumo ilimitado de bens duráveis, sobretudo supérfluos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

VAMOS IMPRIMIR DINHEIRO?

O imaginário popular está cheio de provérbios citando o dinheiro. Eis alguns:

1) “Dinheiro não traz felicidade, manda buscar”.
2) “Tempo é dinheiro”.
3) “Dinheiro e mulher bonita, governam o mundo”. E muitos outros do gênero.

Ora! Se dinheiro é tudo isso, e, como o vil metal está raro para muita gente, só me resta fazer um convite ao amigo leitor: Vamos fazer dinheiro?

Antes, porém, seria interessante procurar entender por que os ricos estão cada vez mais ricos e, inversamente, por que os pobres estão cada vez mais pobres?

Para entender essa visível contradição torna-se oportuno observar que, cerca de 95% de todo o numerário em circulação na economia mundial, encontra-se concentrado nas atividades financeiras especulativas.[1]. Isto explica porque tantas economias debilitadas são privadas de recursos para realizar investimentos produtivos, com repercussões perversas na qualidade de vida de suas populações.

Uma outra questão relacionada à concentração mundial da renda, decorre do fato do dinheiro ganhar vida no capitalismo. Isto explica porque, dada as ações protagonizadas pelas inversões financeiras, o dinheiro gera mais dinheiro, através dos juros, elevando assim a riqueza de seus possuidores.

Importa observar que, ao chamar o público leitor para imprimir dinheiro, na verdade eu falo do chamado dinheiro social, que, ao contrário do meio circulante oficial, não gera exclusão, mas seu inverso, a inclusão econômico-social.

Os indecisos que ainda não definiram se vão ou não aceitar o convite feito acima, muito provavelmente estarão se perguntando: - Mas então o que são e como funcionam as moedas sociais?

Vamos por parte. Moedas sociais são instrumentos emitidos e administrados por seus usuários, membros associados de coletivos, que se pautam por princípios de cooperação, solidariedade e justiça social, atuando de forma complementar ao meio circulante oficial. Portanto, seu uso faz economizar a utilização das moedas correntes, ampliando, por conseguinte, a capacidade de compra do consumidor.

Algo salta à vista de imediato: as moedas sociais favorecem a produção e não a especulação. Isto porque tais moedas não geram o pagamento de juros[2], não induzindo, por sua vez à sua acumulação. Seu valor não é intrínseco, mas está em estimular os fluxos de produção, circulação e consumo de produtos, serviços e saberes nas economias locais.

As moedas sociais são freqüentes nos clubes de troca, estimulando e incluindo, no processo produtivo, elevado contingente de trabalhadores não absorvidos pela economia formal, expulsos pela modernização produtiva (os não tão jovens) ou, impedidos de entrar, por falta de experiência (aqueles mais jovens).

Nas comunidades que avançaram em seu grau de organização, o uso da moeda social tem seu raio de ação ampliado, promovendo ações de forte viés emancipatório, com a criação dos chamados bancos comunitários[3]. Dentre estes, destacam-se, dois exemplos exitosos: o Banco da Aldeia, em Bangladesh, na Ásia e, no Brasil, o Banco Palmas, na periferia de Fortaleza-Ceará.

Importa ainda salientar que o uso da moeda social tem grande caráter pedagógico, tornando explicitas as relações que permeiam o uso da moeda oficial e seu papel no fortalecimento da economia capitalista, excluindo, por via da conseqüência, as condições de promoção do bem viver coletivo.

O uso da moeda social, por estar relacionado à demanda na economia local, fortalece a geração de trabalho e renda, permitindo, a um maior número de pessoas, produzir e consumir de forma consciente, criando condições de empoderamento[4] de pessoas e comunidades.
Portanto, a criação de moeda social é conseqüência da conscientização de que, as verdadeiras mudanças sociais não acontecem ao acaso e, muito menos, fruto da ação individual de algum “iluminado”, porém, ao contrário, através de práticas coletivas com foco no ser humano, e que possibilitem o bem viver coletivo.

Depois dessas considerações é oportuno voltar ao começo da conversa: Vamos imprimir dinheiro?




[1] Disponível em http://www.geranegócio.com.br/html/geral/microcrédito/trocaed.html, acessado em 23 de fevereiro de 2009.
[2] Há uma corrente de pensadores, tendo à frente o austro-alemão Sílvio Gesell (1862-1930), que propõe que a moeda social deva gerar juros negativos, estimulando, dessa forma, o exercício da função maior da moeda, qual seja a intermediação das trocas.
[3] Existem hoje no Brasil, cerca de 35 bancos sociais, segundo dados recentes da Secretaria Nacional de Economia Solidária – SENAES.
[4] Entendido como as condições nas quais as pessoas aprendem que o poder está com elas e com seu coletivo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

COMO FORMAR UM CLUBE DE TROCA

A formação de um clube de troca em uma dada comunidade reveste-se de uma importância muito grande. A relevância de tal criação decorre do papel que este instrumento de prática econômica solidária poderá exercer no futuro das pessoas envolvidas.

Tão importante quanto falar sobre uma nova prática econômica é praticá-la. Desta maneira, ao vivenciar a solidariedade, a equidade e a partilha em um dado coletivo, através de atividades produtivas cotidianas, será possível convencer a todos que o esforço produtivo coletivo, voltado à consecução de objetivos comuns, será infinitamente maior que o somatório dos esforços individuais.

Dessa forma, como estratégia de sobrevivência, a criação de um clube de troca por uma coletividade, dada à força argumentativa da prática econômico-social, deverá revestir-se de um caráter inovador na localidade.

Isto posto, importa traçar, em seguida, alguns passos que deverão possibilitar a criação de um clube de troca.

Uma primeira questão básica é saber se existem pessoas na localidade que desejem a criação de um clube de troca local. Sendo detectado, através de um levantamento, um número mínimo de pessoas que tenham algum conhecimento do funcionamento de um clube de troca e desejem maiores informações, ou que desconheçam seu funcionamento, mas tenham interesse em conhecê-lo, já é suficiente para, através de reuniões, tornar explícitos alguns pressupostos estruturais de um clube de troca, tais como:

i) Todo produtor é também consumidor. Ou seja, os associados deverão constituir demanda e oferta dos produtos, serviços e saberes transacionados no clube de troca, visto que a reciprocidade gera a vida social;
ii) A presença nas reuniões, por ser um instrumento de difusão do modelo, poderá ser um critério para a associação no clube de troca;
iii) Ninguém será dono do clube de troca. Este deverá ser entendido como um instrumento de inserção econômica dos membros da comunidade, no qual o trabalho deverá sempre atuar como referência;
iv) Deverá ser dada ênfase a criatividade dos associados, visto que o surgimento de práticas inovadoras sociais deverá ser indutor da emancipação e desenvolvimento locais;
v) Deverá ser reservado cerca de 30 minutos ao final de cada feira de trocas para que haja uma auto-avaliação dos acertos e do que precisa ser melhorado nas próximas feiras de troca.

Uma segunda ação também importante deverá ser a elaboração de um levantamento dos produtos, serviços e saberes que poderão ser ofertados na primeira feira de trocas solidárias.

Uma prática complementar ao levantamento sugerido no tópico anterior, deverá ser a elaboração de um “Classificados Solidários”, no qual, os associados listarão nome, endereço, formas de contato (telefone, e-mail, por exemplo) e, principalmente, o que sabe e deseja produzir, além dos produtos, serviços e saberes a serem demandados. Em muitas localidades, a elaboração simples desta listagem já desencadeia um conjunto significativo de transações.

Uma outra ação necessária será a definição de uma Diretoria, com caráter rotativo, para que todos os associados tenham oportunidade de conhecer e opinar sobre a estrutura administrativa do clube de troca.

A Diretoria deverá adquirir alguns livros para controle das operações do clube de troca, tais como livro de Cadastramento dos Sócios, Movimentação Financeira (nas feiras e nas despesas de funcionamento do clube de troca), Atas das Reuniões e outros que se façam necessários.

Outra ação que deverá ser tomada pelos associados será a definição da moeda social (nome, forma, cor e valores). Inicialmente será utilizada uma moeda provisória, sendo esta, posteriormente substituída por outra de caráter permanente.

Outra questão relevante será a divulgação da feira, estabelecimento da Comissão de Recepção dos Freqüentadores, e a instalação do embrião do Banco Social, que emitirá as moedas sociais provisórias.

A definição da data, hora, local e demais condições de funcionamento da primeira feira de trocas solidárias será praticamente “o abre alas” para o início do clube de trocas.

Questões menores, mas também importantes, surgirão ao longo da instalação da primeira feira e serão resolvidas pelo coletivo.

No mais, é acreditar no trabalho coletivo voltado à inclusão sócio-econômica e cultural de todos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

OS CLUBES DE TROCA E A EXPANSÃO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA

(Parte I)
I - ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS

A expansão de atividades típicas de economia solidária no Brasil se dá a partir dos anos 1980 e 1990, período denominado como “as décadas perdidas”, visto que, em conseqüência das mudanças econômicas no mundo desenvolvido, mais especificamente na economia norte-americana
[1], as economias subdesenvolvidas, dentre estas, a brasileira, passaram a amargar variações do PIB próximas de zero, acarretando situações adversas com forte impacto na deterioração da qualidade de vida de seus habitantes.

As práticas de economia solidária vão desde as produções e formas de comercialização com foco na equidade, partilha e respeito ao meio ambiente, utilizando-se de associações e cooperativas populares, passando por empresas autogestionadas, [2] a formação de cadeias e redes produtivas e, principalmente, pela formação de clubes de trocas solidárias, geralmente atreladas ao uso de moedas sociais e bancos comunitários ou sociais.

Entende-se por clubes de trocas às associações dos chamados prossumidores[3], geralmente moradores de uma dada comunidade local, os quais produzem e consomem produtos, serviços e saberes internamente, recriando espaços econômicos para produtores que, por condições como idade, qualificação e inexperiência laboral formalizada são expulsos ou impedidos de fazerem parte da economia de mercado.

Os clubes de trocas solidárias aparecem como uma forma de resistência criada pelos trabalhadores a um contexto de exclusão, originado pela concorrência capitalista, visto que as funções de produção[4] decorrentes dessa disputa são, invariavelmente, intensivas em capital e, consequentemente, excludentes de mão de obra.

Tais clubes de trocas ao serem criados fazem uso das feiras de trocas solidárias, onde, invariavelmente, ocorrem múltiplas transações, sem uso do chamado dinheiro (ou moeda) oficial e, o que é mais importante, sem a intensão de ganhar impondo perdas ao outro participante da transação. Na necessidade de dinheiro para permitir, através do troco, as permutas de bens de valores distintos, são utilizadas exclusivamente as moedas sociais, criadas por cada clube de troca.

Na criação de tais moedas, ou mais especificamente, na definição do nome, formato, cores e representações contidas nas mesmas, há toda uma preocupação de fazer representar as características, lutas, conquistas e identidades da comunidade. Isto explica, por exemplo, porque no município de Valença, no Rio de Janeiro, a moeda social criada pelo clube de troca local denomina-se Coroados. Segundo documentos da história local, Coroados era a denominação da tribo que originalmente habitou a região. Portanto, além de instrumento de troca, a moeda social funciona como instrumento de valorização da cultura local.

As moedas sociais funcionam, inicialmente, como um crédito fornecido pelo embrião do banco social local aos associados, permitindo o surgimento de um contexto de abundância, onde antes havia um contexto de escassez.

Vale lembrar que o dinheiro (aqui considerado como oficial) foi criado para facilitar e potencializar as trocas, assumindo, inicialmente, funções como intermediário ou meio de troca, reserva de valor e instrumento de entesouramento.

O contexto de escassez acima citado, decorre da concentração dos meios de pagamento (dinheiro) nas mãos de poucos, visto que cerca de 95% do capital mundial está a serviço da especulação financeira.[5] Tal entendimento é reforçado por Klagsbrunn ao afirmar que “...constata-se um aumento do peso relativo da esfera financeira da riqueza, pois o volume de seus valores aumenta mais que proporcionalmente ao capital produtivo”. (2004, p.19).

A expansão e hegemonia do sistema capitalista, enquanto modo produtivo provocou mudanças, tendo, no predomínio quase exclusivo da produção voltada aos mercados (mercadorias), sua principal característica. Considerando que o acesso a tais mercadorias se dá em conseqüência da posse do dinheiro, deduz-se que sua não obtenção, implica, necessariamente, numa situação de carência, excluindo, dessa forma, do consumo, parcela significativa da população, a qual irá compor seu contingente destituído de condições básicas de sobrevivência. [6]
II - A ORIGEM HISTÓRICA DO CLUBE DE TROCA

A origem dessa estrutura de negociação posteriormente denominada clube de trocas solidárias, ocorreu na cidade de Vancouver, no Canadá, em virtude da grande crise na indústria florestal, iniciada na década de 1970, que acabou por provocar o fechamento de inúmeras empresas madeireiras, tidas como importantes fontes geradoras de emprego, o que acarretou séria crise econômico-social.

A alternativa encontrada pelos trabalhadores desempregados, logo apoiada pelos agentes econômicos locais, foi a instituição de trocas generalizadas, possibilitando a manutenção de parte do poder de compra da comunidade. O uso de moedas locais foi conseqüência da necessidade de expansão das trocas, as quais envolviam números crescentes de agentes econômicos. Uma característica comum existente tanto nos clubes de trocas inicialmente introduzidos no Canadá, quanto nos atuais, instalados em praticamente todo o mundo, decorre da inexistência de uma fórmula única, pré-estabelecida, para ser instalada em distintas localidades. Torna-se consensual que cada clube de troca local deve estabelecer ações solidárias em sintonia com as especificidades locais.


[1] Desvinculação do dólar ao padrão ouro, realização da primeira desvalorização do dólar no período pós-guerra, elevação extorsiva das taxas de juros internacionais e deterioração dos termos de intercâmbio.
[2] Empresas autogestionadas são aquelas cujos trabalhadores respondem pela produção e gestão, dentro de uma estrutura democrática, onde todos têm acesso às informações, sendo que as decisões, principalmente aquelas tidas como mais relevantes, são tomadas em assembléias gerais, nas quais todos têm igual poder de decisão.
[3] Alvin Toffler, em seu livro A Terceira Onda, criou a denominação prossumidores, para definir as pessoas que simultaneamente atuam como produtoras e consumidoras.

[4] Entende-se por função de produção a relação entre a produção de um bem e os fatores de produção utilizados em sua geração.
[5] Disponível em http://www.geranegócio.com.br/html/geral/microcrédito/trocaed.html, acessado em 23 de fevereiro de 2009.
[6] Isto explica porque, no capitalismo, quem tem dinheiro tudo pode. Quem não tem dinheiro, mas tem crédito, tudo pode também. Agora, quem não tem dinheiro, nem crédito, que é a condição da maioria, nada pode no sistema capitalista.